texto de minha autoria.
É madrugada, o sono está a quilômetros de mim e meu cérebro se contorce em minha cabeça infinitas vezes durante os diminutos e insustentáveis segundo que insistem em mover os ponteiros do relógio da parede da cozinha. O tique-taque da vazão das horas entra em ressonância com os batimentos da bomba pulsátil que insisto em dizer que tenho, e acabo por misturar o escuro da noite com os medos e desgostos que carrego no peito. A verdade é que a vida é dotada de uma graça quase mortal, que insiste em rir com as ânsias e temores dos fracos. O fato é que ela não apenas ri, ela tripudia, esmaga, esmigalha, ela rasga em retalhos os planos feitos, os sonhos conquistados, a felicidade e a casa daqueles que por muito tempo divagaram absortos na névoa da solidão e do desespero de não ter um lugar pra aquecer o coração. Sinto o lisonjeio de estar servindo de alvo pra suas armações, na verdade, de alguma forma, sempre fui quem esteve na mira da sua voracidade de acabar implacavelmente com a felicidade daqueles que dela pouco experimentaram. Talvez seja essa a hora do sono chegar e derrubar a porta do meu quarto, como um convite para eu me deitar e desligar de tudo que tanto me importuna. Não, ele continua distante de mim, e infelizmente, ele não é o único que se ausenta hoje e na maioria de meus dias. Pois bem, a insônia me concede a prerrogativa de esmiuçar e dissecar com exatidão todos meus problemas, todos os espaços dentro que mim que foram esvaziados e agora não passam de lacunas que insisto em tentar esquecer. A questão é: como esquecer aquilo que te fez feliz? Mesmo que o que reste seja apenas o cadáver daquele teu sonho, mesmo que as lacunas estejam vazias, mesmo que a coluna vertebral esteja sem uma vértebra, não se pode ignorar que ali dentro já viveram as melhores partes de ti. O choro torna-se inevitável, as lágrimas rolam da minha face do mesmo modo que a tristeza goteja dentro de mim formando poças que são demasiado grandes para eu suportar. Deixar pra trás, fingir que não se importa, segurar a lágrima que, com a ajuda da gravidade, desliza pelo rosto e descansa na boca, dando o gosto salgado e amargo aos dias daqueles que partiram. Ir embora e jamais olhar pra trás? Quanta asneira! É impossível não sentir o coração falhar uma batida toda vez que o nome do teu lar ou de alguém que tu amas é mencionado, é impossível não se encontrar, por muitas vezes, rindo sozinha com a mera recordação de algum momento normal, mas incrível em essência, é impossível não fechar os olhos para se transferir mentalmente para casa, como maneira de fazer a alma encontrar o coração que há muito não está no peito. Dói, realmente punge estar longe do coração e da alma, porque o que resta é meu corpo, o que se torna um fardo, um fardo que perdeu as asas assim que desertou sua casa. Olá, sono! Mesmo com o atraso, insisto em agradecer-te por vir me acudir. Irei dormir e anestesiar meu cérebro, mas não agora, pois ainda há palavras latentes dentro de mim. Há coisas que urgem por serem ditas e uma delas é: eu sou diferente, não por opção, eu não escolhi sofrer 25 horas por dia por mero masoquismo. Eu não sou como os outros, em vários sentidos. Aliás, quero demais, sonho demais, choro demais, gosto de sentir o drama pulsando em mim. Que me perdoem os que são bloqueados e fechados de mais para entender minhas ânsias e idiossincrasias, mas há em mim coisas imutáveis, coisas que venho tentando arduamente mudar, em vão, ao longo dos anos. Não me desesperarei, quem já está acostumada a esse aperto no peito, a essa sensação de falta de ar, sabe contornar alguns desses obstáculos. Hoje, pretendo dormir como maneira de ninar todos os meus anseios. O cansaço já acomete minhas pernas que doem e estão fracas, tão fracas quanto minha resiliência. A cama é convidativa e preparo-me para pôr tudo que ainda está dentro de mim para dormir. Bem, meu coração que longe está, deixo para ser acalentado por outra pessoa que dele muito bem cuida. Boa noite coração, boa noite lar, boa noite amores, encontro vocês em alguns instantes.